...Bem, o Thomas (Henriot, Thomas Henriot) é um cara de um talento incrível, que retrata pessoas e cenários urbanos com a sensibilidade de poucos, e, mesmo assim, ao mesmo tempo que revela em seus desenhos quadros tão complexos, revela em si mesmo uma personalidade super simples.
A entrevista foi feita por ocasião do Ano da França no Brasil para um determinado veículo aqui de Curitiba, mas infelizmente não chegou a ser publicada. Ah! Sim, eu precisei de uma intérprete para a entrevista. Espero que gostem!


Após os estudos na escola Les Beaux- Arts, em Besançon, França, Thomas começou a viajar pelo mundo retratando o cotidiano dos lugares por onde passa. Desde 1998, já esteve em lugares com Líbano, Índia, Argentina, Marrocos, Mali, Mauritânia e também China e algumas cidades da França.
Carol: Você tem viajado por diversos países retratando seu cotidiano. Quando e como foi que esse trabalho começou?
Thomas: Sempre desenhei, desde pequeno, parece que nunca escolhi fazer isso, é algo que sempre esteve em mim. E sobre as viagens, tudo começou em 1998, quando fui ao Líbano. Essa primeira viagem foi definitiva para o caminho que segui depois. Naquela ocasião descobri que existiam outras realidades fora da Europa. Fui muito bem recebido lá, enquanto desenhava nas ruas. E percebi o que podia acontecer desenhando na rua.
Carol: E por que a rua, ao invés de um atelier?
Thomas: Porque provoca muitas reações... me dei conta de que ali, num local qualquer, sentado na calçada, e retratando aquele espaço, de certa forma eu fazia com que ele existisse, e as pessoas que por ali passavam podiam ver aquele lugar de maneira diferente. Descobri que o desenho é um tipo de linguagem, como a escrita. É como escrever numa linguagem que todos podem ler... e isso é importante em lugares como a Índia, por exemplo, onde há muitos analfabetos.
Carol: Você esteve no Brasil no último ano, no Rio, certo? Quais diferenças você sente entre Rio e Curitiba?
Thomas: Aqui é mais pacato, me sinto seguro aqui... e as pessoas reagem mais também, interagem. No Rio eu ficava meio “invisível” no meio da multidão... e algumas vezes era como se as pessoas temessem a minha presença, talvez porque trabalho no chão. E no geral a atmosfera é muito diferente entre as duas cidades. No Rio os objetos que retrato parecem mais distantes, as coisas não chegam a você do mesmo jeito.
Carol: E sobre seus desenhos, por que utiliza na maioria das vezes o preto?
Thomas: É uma referência à pintura chinesa, que me marcou muito. Para os chineses a idéia do traço é muito importante. O traço negro é como uma união entre o homem e o universo. É por meio desse traço que entro em comunhão com o universo. E o fato de desenhar no chão, nas calçadas, também é uma tentativa de encontrar de novo essa união, esse contato com o universo... é uma luta, de muitos dias para que o corpo possa se engajar nessa busca. E se os meus desenhos estão tão negros é porque estão cheios de melancolia, e intuição, de sentir que as coisas que desenho vão desaparecer em breve. Todo meu trabalho tem a ver com essa idéia, de fim, de morte, espaço e tempo.
Carol: O que o Ano da França no Brasil traz de positivo?
Thomas: Bem tudo isso é muito bom para gerar encontros entre as pessoas, troca de idéias. É também uma boa oportunidade para desenvolver meu trabalho, encontrar artistas brasileiros e envolver as pessoas no meu trabalho.
Fotos: Carol Costa